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As nações seguem fracassando

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Um ano depois de publicar Por que as nações fracassam, Daron Acemoglu e James Robinson gestam sequência do livro em blog, de onde defendem sua ambiciosa teoria de críticos como Bill Gates e Jeffrey Sachs

O livro é o resultado de 15 anos de estudo de Acemoglu e Robinson

O livro é o resultado de 15 anos de estudo de Acemoglu e Robinson

A ideia é simples: a prosperidade de uma nação não depende da cultura de seu povo, da abundância de recursos naturais ou de sua localização geográfica, mas da existência de instituições políticas “inclusivas”, capazes de evitar que uma elite se aproveite do resto da população. Para defender essa teoria, Daron Acemoglu e James Robinson vão do Neolítico à China moderna, passando pelo auge de Veneza, o Império Romano e a Revolução Gloriosa, na Inglaterra, no livro Por que as nações fracassam, lançado há pouco mais de um ano. Desde então, a teoria só ganhou força, acredita Robinson, que, junto com Acemoglu, desenvolve no blog whynationsfail.com o que deve embasar uma sequência para o livro, que ganhou, em fevereiro, a primeira edição do Paddy Power and Total Political Book Awards na categoria ‘Relações Internacionais’ e já foi comparado a A Riqueza das Nações, de Adam Smith.

Nos últimos meses, os autores têm publicado na internet artigos sobre a Venezuela pós-Hugo Chávez, o crescimento econômico da Turquia e os entraves para o avanço político nas Filipinas — mais recentemente, comentaram os protestos no Brasil. “Gostaríamos de escrever um livro menos histórico e mais focado na mudança institucional e no que a motiva, além de tentar oferecer ideias mais práticas sobre políticas e sobre como reformar más instituições”, contou Robinson, cientista político e professor da Universidade de Harvard, em entrevista por e-mail. Segundo o professor, ao longo do último ano, ele e Acemoglu, economista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), têm pensado mais sobre o que chamam no livro de “centralização política” — requisito, na teoria, para a prosperidade de uma nação — e sobre as forças que levam à criação de Estados fortes e eficientes. “Isso está pouco teorizado no livro, apesar de termos escrito muito sobre o assunto”, avalia Robinson.

De fato, Por que as nações fracassam é ambicioso o bastante para diagnosticar as origens da prosperidade e da pobreza, mas não para apresentar fórmulas capazes de inevitavelmente levar ao sucesso de qualquer nação. A partir de exemplos históricos, os autores expõem que a evolução das instituições em diferentes países foi reflexo das contingências por que seus povos passaram em momentos diversos – a prosperidade dos Estados Unidos, por exemplo, teria origem na baixa densidade de nativos na América do Norte no momento em que os ingleses chegaram, fator que dificultou a dominação da população local e a consequente colonização extrativa, nos moldes conduzidos pelos espanhóis na América Latina. Baseados nessa constatação, Acemoglu e Robinson apontam os limites da ajuda estrangeira em um país institucionalmente desorganizado.

Ajuda estrangeira

Os autores destacam, no livro, que de muito pouco servirão os milhões de dólares investidos por ONGs e entidades internacionais se as instituições políticas da nação que recebe o auxílio permanecerem as mesmas — o que, no fundo, vai depender dos políticos locais. A análise não agradou ao bilionário Bill Gates, um dos maiores filantropos do mundo. “Os autores terminam [o livro] com um imenso ataque à ajuda humanitária estrangeira, dizendo que, na maioria das vezes, menos de 10% chega ao beneficiário pretendido. Eles citam o Afeganistão como exemplo, o que é um erro, já que o Afeganistão é uma zona de guerra e a ajuda foi aumentada muito rapidamente, respondendo a metas relacionadas à guerra”, critica Gates, que, em resenha publicada no site de sua fundação em fevereiro, classifica o livro, entre outros desabonadores, como “simplista”.

Como se acostumaram a fazer desde que a obra foi lançada, Robinson e Acemoglu não deixaram a resenha do fundador da Microsoft sem resposta. Em artigo publicado pela revista Foreign Policy, em março, os dois rebatem uma a uma as criticas de Gates, assim como fizeram em seu blog quando criticados pelo economista Jeffrey Sachs e pelo cientista político Francis Fukuyama, entre outros. “Bill Gates disse que o livro era simplista, mas sua resenha mostrou que ele não captou o argumento. Como um argumento pode ser simplista e ao mesmo tempo não ser simples o bastante para ser compreendido?”, questiona Robinson, que classifica a avaliação de Gates como “decepcionante”.

Apesar do barulho causado pelas críticas — e pelas sempre contundentes respostas dos autores de Por que as Nações Fracassam — a quantidade de elogios que o livro vem recebendo, de gente como Thomas Friedman e Martin Wolf, é muito maior que os questionamentos à tese que opõe instituições “inclusivas” e “extrativas”, e tem animado seus formuladores. “Dei palestras sobre o livro no Líbano, no Egito e na Turquia em janeiro, e a análise se harmonizou com a forma como as pessoas enxergam os problemas políticos e econômicos desses países. Acho que a teoria evoluiu”, celebra Robinson. Que venha a sequência do livro.

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Written by Rodolfo Borges

Julho 16, 2013 às 1:28 pm

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