Literatura de Verdade

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Admirável mundo velho

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pensadores inventaram brasil

Fernando Henrique é um homem de esquerda. Por mais que petistas, comunistas, socialistas e operários tentem negá-lo, a posição fica bem clara no recém-lançado Pensadores que inventaram o Brasil, que reúne artigos e ensaios do ex-presidente publicados desde a década de 1970, além de alguns inéditos. Uma das grandes qualidades do tucano enquanto sociólogo, aliás, — e talvez como político — está exatamente no que mais incomoda aqueles que estão à sua esquerda: a moderação lhe permite perceber, considerar e até valorizar o pensamento conservador.

Digo isso cada vez mais seguro de que o pensamento esquerdista de pouco ou nada vale sem o contraponto direitista, e vice-versa. É da perspectiva progressista, portanto, que saem do livro de FHC grandes elogios, ainda que entre ponderações quase que em tom de desculpa, a pensadores como Joaquim Nabuco e Gilberto Freyre. O ápice nesse âmbito, contudo, é o trecho de uma aula magna a alunos do Instituto Rio Branco em que o ex-presidente lembra do incômodo que lhe causou sentir prazer ao ler uma conferência de Jorge Luis Borges.

Era a ditadura de Augusto Pinochet e FHC estava exilado no Chile. “Na ocasião, li num jornal, El Mercurio, que é o mais importante do Chile, uma longa conferência de Borges, de Jorge Luis Borges”, conta o autor, que segue: “Ele tinha ido ao Chile para receber um prêmio dos militares. Li e me deliciei, o que me produziu em seguida uma certa indignação: eu me sentia feliz com o Chile-físico e deliciado pela literatura de Borges, apesar do horror que sentia do regime de Pinochet. Era demais; fiquei indignado comigo”.

O sociólogo diz que “a conferência de Borges sobre a língua espanhola, sobre o idioma castellano era admirável”. “Mas fazia a defesa mais reacionária possível da intangibilidade da língua, da necessidade de evitar que a língua evoluísse. Tudo escrito de maneira tão bela, tão convincente, que eu me empolguei com a conferência”, conta, numa passagem de honestidade intelectual explícita que me parece valer não apenas a leitura, mas a compra do livro.

É nesse clima que FHC exalta Euclides da Cunha sem deixar de apontar os limites de Os Sertões e reconhece a importância de Raymundo Faoro apesar de implicar com a obsessão do autor de Os donos do poder pelo patrimonialismo. A obra é, enfim, uma boa introdução ao pensamento nacional.

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Written by Rodolfo Borges

Agosto 1, 2013 às 6:17 pm

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