Literatura de Verdade

Um blog sobre livros e notícias. E notícias sobre livros.

O mensalão em dois artigos do Código dos homens honestos

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Balzac-mensalao

Considerando, antes de tudo, que, de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é a Justiça, como lembra o Código dos Homens Honestos, de Balzac, seguem dois breves artigos desse manual também conhecido por A arte de não se deixar enganar pelos larápios (na tradução de Léa Novaes), que, se lidos com atenção e alguma boa vontade, devem contribuir para dificultar sua compreensão das coisas:

Livro Segundo
Art.56º
: Há belos cafés novos, como também mudanças de ministério; é você quem vai pagar.

Livro Primeiro, Capítulo II, Título II
Art.20º: Quando um jornalista vende seus elogios, é uma escroqueria flagrante, pois, por mais célebre que seja, cem linhas não valem cem tostões.

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Written by Rodolfo Borges

Novembro 21, 2013 at 8:27 pm

No caminho de Marcel

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Proust-Boulevard9

Para não deixar o centenário da publicação de No caminho de Swann — ou, como prefere Mario Sergio Conti em sua nova tradução, Do lado de Swann — passar em branco, segue a fachada do apartamento em que o pequeno Proust morou, num segundo andar do número 9 do Boulevard Malesherbes, nas últimas décadas do século 19, segundo registro do biógrafo George D. Painter — e onde, portanto, Marcel se deitava cedo, dormia tarde e, todo dia, despertava para redescobrir quem era e onde havia adormecido.

Written by Rodolfo Borges

Novembro 18, 2013 at 12:22 am

Em tempos de Mídia Ninja, uma questão de fundo

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Estamos de olho

As plataformas mudaram e, com as mudanças, veio a impressão de que o jornalismo evoluiu de alguma forma na era cibernética. Em alguns aspectos, talvez, mas na essência a ~nova mídia~ me parece mais antiga (pra lá de 1930) que a ~velha mídia~. Recado de Fradique Mendes, do Eça de Queiroz:

E quem nos tem enraizado estes hábitos de desoladora leviandade? O jornal — o jornal, que oferece cada manhã, desde a crónica até aos anúncios, uma massa espumante de juízos ligeiros, improvisados na véspera, à meia noite, entre o silvar do gás e o fervilhar das chalaças, por excelentes rapazes que rompem pela redação, agarram uma tira de papel e, sem tirar mesmo o chapéu, decidem com dois rabiscos da pena sobre todas as coisas da Terra e do Céu. Que se trate duma revolução de Estado, da solidez dum Banco, duma Mágica, ou dum descarrilamento, o rabisco da pena, com um traço, esparrinha e julga. Nenhum estudo, nenhum documento, nenhuma certeza.

Written by Rodolfo Borges

Agosto 9, 2013 at 4:16 pm

Admirável mundo velho

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pensadores inventaram brasil

Fernando Henrique é um homem de esquerda. Por mais que petistas, comunistas, socialistas e operários tentem negá-lo, a posição fica bem clara no recém-lançado Pensadores que inventaram o Brasil, que reúne artigos e ensaios do ex-presidente publicados desde a década de 1970, além de alguns inéditos. Uma das grandes qualidades do tucano enquanto sociólogo, aliás, — e talvez como político — está exatamente no que mais incomoda aqueles que estão à sua esquerda: a moderação lhe permite perceber, considerar e até valorizar o pensamento conservador.

Digo isso cada vez mais seguro de que o pensamento esquerdista de pouco ou nada vale sem o contraponto direitista, e vice-versa. É da perspectiva progressista, portanto, que saem do livro de FHC grandes elogios, ainda que entre ponderações quase que em tom de desculpa, a pensadores como Joaquim Nabuco e Gilberto Freyre. O ápice nesse âmbito, contudo, é o trecho de uma aula magna a alunos do Instituto Rio Branco em que o ex-presidente lembra do incômodo que lhe causou sentir prazer ao ler uma conferência de Jorge Luis Borges.

Era a ditadura de Augusto Pinochet e FHC estava exilado no Chile. “Na ocasião, li num jornal, El Mercurio, que é o mais importante do Chile, uma longa conferência de Borges, de Jorge Luis Borges”, conta o autor, que segue: “Ele tinha ido ao Chile para receber um prêmio dos militares. Li e me deliciei, o que me produziu em seguida uma certa indignação: eu me sentia feliz com o Chile-físico e deliciado pela literatura de Borges, apesar do horror que sentia do regime de Pinochet. Era demais; fiquei indignado comigo”.

O sociólogo diz que “a conferência de Borges sobre a língua espanhola, sobre o idioma castellano era admirável”. “Mas fazia a defesa mais reacionária possível da intangibilidade da língua, da necessidade de evitar que a língua evoluísse. Tudo escrito de maneira tão bela, tão convincente, que eu me empolguei com a conferência”, conta, numa passagem de honestidade intelectual explícita que me parece valer não apenas a leitura, mas a compra do livro.

É nesse clima que FHC exalta Euclides da Cunha sem deixar de apontar os limites de Os Sertões e reconhece a importância de Raymundo Faoro apesar de implicar com a obsessão do autor de Os donos do poder pelo patrimonialismo. A obra é, enfim, uma boa introdução ao pensamento nacional.

Written by Rodolfo Borges

Agosto 1, 2013 at 6:17 pm

A Amazon cava a própria cova?

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Digamos que o enterro ainda demora a acontecer

Digamos que o enterro ainda demora a acontecer

A informação de que o executivo-chefe da Barnes & Noble, maior rede de livraria dos Estados Unidos, pediu demissão disparou um novo alerta no mercado editorial americano. William Lynch não conseguiu cumprir a missão de fazer o Nook vingar no mercado de leitores eletrônicos, e sua saída do grupo vem sendo encarada como a derrocada final da livraria. E quem seria o grande perdedor nessa história, segundo os analistas americanos? A poderosa Amazon.

O argumento básico é que a hegemonia virtual da Amazon, que teria efeito direto no fracasso dos concorrentes, tende a eliminar a forma mais tradicional de apresentação dos livros: a exposição em livraria. O raciocínio se escora em pesquisas como a que aponta que apenas 17% dos leitores descobrem no ambiente on-line os livros que acabam por comprar. Eu mesmo, um consumidor de e-books, costumo fazer minha visita semanal à livraria, para saber das novidades.

O problema é que pesquisas do mesmo Codex Group apontam que as grandes lojas, que outrora já tiraram do mercado as pequenas livrarias, contribuem cada vez menos para a descoberta de livros pelos consumidores. Em junho de 2010, um terço dos leitores dizia ter achado seu último livro numa loja física nos EUA. Em dezembro de 2012, a proporção já havia caído para um quinto, em parte por causa do fechamento de lojas, em parte porque o mercado e o consumidor estão mudando, o que não é necessarimente ruim.

Além do mais, o alarmismo parece não ter fundamento. Ironicamente, apesar de o Nook não ter conseguido competir com o Kindle e de a Barnes & Noble fechar algumas lojas (16 por ano, o que, em 2012, equivalia a 2% da rede), a divisão de vendas físicas do grupo vem apresentando lucros — 95% das lojas, aliás, são lucrativas. Tanto que o fundador da rede, Leonard Riggio, pensa em comprar todas as lojas do grupo.

No fim das contas, os livros de papel e as livrarias vão acabar tendo o mesmo destino das cartas, postais, cinemas e discos de vinil após o surgimento do e-mail e dos filmes e músicas digitalizados: livres do valor utiltário, eles podem vir a ter as qualidades (ambiente, peso, volume, design, etc) realçadas. Que as editoras e livrarias percebam a mudança e enfrentem o desafio.

Written by Rodolfo Borges

Julho 20, 2013 at 4:42 pm

As nações seguem fracassando

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Um ano depois de publicar Por que as nações fracassam, Daron Acemoglu e James Robinson gestam sequência do livro em blog, de onde defendem sua ambiciosa teoria de críticos como Bill Gates e Jeffrey Sachs

O livro é o resultado de 15 anos de estudo de Acemoglu e Robinson

O livro é o resultado de 15 anos de estudo de Acemoglu e Robinson

A ideia é simples: a prosperidade de uma nação não depende da cultura de seu povo, da abundância de recursos naturais ou de sua localização geográfica, mas da existência de instituições políticas “inclusivas”, capazes de evitar que uma elite se aproveite do resto da população. Para defender essa teoria, Daron Acemoglu e James Robinson vão do Neolítico à China moderna, passando pelo auge de Veneza, o Império Romano e a Revolução Gloriosa, na Inglaterra, no livro Por que as nações fracassam, lançado há pouco mais de um ano. Desde então, a teoria só ganhou força, acredita Robinson, que, junto com Acemoglu, desenvolve no blog whynationsfail.com o que deve embasar uma sequência para o livro, que ganhou, em fevereiro, a primeira edição do Paddy Power and Total Political Book Awards na categoria ‘Relações Internacionais’ e já foi comparado a A Riqueza das Nações, de Adam Smith.

Nos últimos meses, os autores têm publicado na internet artigos sobre a Venezuela pós-Hugo Chávez, o crescimento econômico da Turquia e os entraves para o avanço político nas Filipinas — mais recentemente, comentaram os protestos no Brasil. “Gostaríamos de escrever um livro menos histórico e mais focado na mudança institucional e no que a motiva, além de tentar oferecer ideias mais práticas sobre políticas e sobre como reformar más instituições”, contou Robinson, cientista político e professor da Universidade de Harvard, em entrevista por e-mail. Segundo o professor, ao longo do último ano, ele e Acemoglu, economista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), têm pensado mais sobre o que chamam no livro de “centralização política” — requisito, na teoria, para a prosperidade de uma nação — e sobre as forças que levam à criação de Estados fortes e eficientes. “Isso está pouco teorizado no livro, apesar de termos escrito muito sobre o assunto”, avalia Robinson.

De fato, Por que as nações fracassam é ambicioso o bastante para diagnosticar as origens da prosperidade e da pobreza, mas não para apresentar fórmulas capazes de inevitavelmente levar ao sucesso de qualquer nação. A partir de exemplos históricos, os autores expõem que a evolução das instituições em diferentes países foi reflexo das contingências por que seus povos passaram em momentos diversos – a prosperidade dos Estados Unidos, por exemplo, teria origem na baixa densidade de nativos na América do Norte no momento em que os ingleses chegaram, fator que dificultou a dominação da população local e a consequente colonização extrativa, nos moldes conduzidos pelos espanhóis na América Latina. Baseados nessa constatação, Acemoglu e Robinson apontam os limites da ajuda estrangeira em um país institucionalmente desorganizado.

Ajuda estrangeira

Os autores destacam, no livro, que de muito pouco servirão os milhões de dólares investidos por ONGs e entidades internacionais se as instituições políticas da nação que recebe o auxílio permanecerem as mesmas — o que, no fundo, vai depender dos políticos locais. A análise não agradou ao bilionário Bill Gates, um dos maiores filantropos do mundo. “Os autores terminam [o livro] com um imenso ataque à ajuda humanitária estrangeira, dizendo que, na maioria das vezes, menos de 10% chega ao beneficiário pretendido. Eles citam o Afeganistão como exemplo, o que é um erro, já que o Afeganistão é uma zona de guerra e a ajuda foi aumentada muito rapidamente, respondendo a metas relacionadas à guerra”, critica Gates, que, em resenha publicada no site de sua fundação em fevereiro, classifica o livro, entre outros desabonadores, como “simplista”.

Como se acostumaram a fazer desde que a obra foi lançada, Robinson e Acemoglu não deixaram a resenha do fundador da Microsoft sem resposta. Em artigo publicado pela revista Foreign Policy, em março, os dois rebatem uma a uma as criticas de Gates, assim como fizeram em seu blog quando criticados pelo economista Jeffrey Sachs e pelo cientista político Francis Fukuyama, entre outros. “Bill Gates disse que o livro era simplista, mas sua resenha mostrou que ele não captou o argumento. Como um argumento pode ser simplista e ao mesmo tempo não ser simples o bastante para ser compreendido?”, questiona Robinson, que classifica a avaliação de Gates como “decepcionante”.

Apesar do barulho causado pelas críticas — e pelas sempre contundentes respostas dos autores de Por que as Nações Fracassam — a quantidade de elogios que o livro vem recebendo, de gente como Thomas Friedman e Martin Wolf, é muito maior que os questionamentos à tese que opõe instituições “inclusivas” e “extrativas”, e tem animado seus formuladores. “Dei palestras sobre o livro no Líbano, no Egito e na Turquia em janeiro, e a análise se harmonizou com a forma como as pessoas enxergam os problemas políticos e econômicos desses países. Acho que a teoria evoluiu”, celebra Robinson. Que venha a sequência do livro.

Written by Rodolfo Borges

Julho 16, 2013 at 1:28 pm

O estranho caso dos médicos cubanos

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Entre um homicídio e outro, Hyde protesta por um melhor sistema de saúde

Entre um homicídio e outro, Mr. Hyde protesta por um melhor sistema de saúde

É como se, após tomar uma poção, os médicos brasileiros tivessem trocado o jaleco de Dr. Jekyll pela capa de Mr. Hyde. Desde que o governo federal anunciou a intenção de trazer doutores cubanos para trabalhar onde os egoístas e mimados profissionais locais não querem, estes passaram a responder por uma parcela das mazelas da saúde brasileira. Faz sentido?

Consideremos a possibilidade de, ao se opor à proposta, os clínicos brasileiros estarem apenas interessados em preservar uma reserva de mercado — algo de que, aliás, eles já vinham sendo acusados, mas por defenderem o Ato Médico — e, ainda assim, a demanda dos doutores será justa. Afinal, por que trazer 6 mil médicos estrangeiros, e logo de Cuba?

Descartemos os argumentos dos governistas, que apoiarão tudo que o governo propuser, e dos anti-governistas, que enxergam até risco comunista nessa história. Para tanto, basta levar em conta o fato de que a ‘exportação’ de médicos é a maior fonte cubana de divisas. Por que os médicos tinham, ao menos na proposta inicial, de ser cubanos, portanto, nós já sabemos.

Como resposta à péssima repercussão da ideia, o governo anunciou que também estava nos planos trazer profissionais europeus. A essência da polêmica, contudo, permanece: para obrigar esse pessoal a trabalhar onde ninguém mais quer, é preciso criar um regime especial, já que, uma vez revalidados seus diplomas, eles podem trabalhar onde bem entenderem. Para evitar essa liberdade, os participante do programa ‘Mais Médicos’ não precisarão comprovar competência e capacitação pelos meios tradicionais.

Diante do quadro, o entusiasta da importação de médicos argumentará, com aparente razão, que é melhor um médico limitado do que nenhum médico a trabalhar nos rincões do país. Infelizmente, não é o que dizem as associações médicas da Venezuela e da Bolívia, que abrigam, desde a década passada, cubanos que alegam ser médicos, mas que protagonizam, entre um curativo e outro, erros grosseiros e fugas para países vizinhos.

A importação de profissionais estrangeiros desqualificados está longe de ser a melhor solução para o problema de distribuição de médicos pelo território nacional — consequência, ao que consta, da falta de condições de trabalho. As melhorias dependem de mais (e melhor) investimento, mas não apenas dele, como o governo parece ter percebido depois de, confrontado, decantar sua proposta.

Só não vale acreditar em elixir governamental que, da noite para o dia, altera o caráter moral de toda uma categoria, transferindo-lhe a responsabilidade por falhas que são da política pública de saúde.

Written by Rodolfo Borges

Julho 8, 2013 at 1:29 pm

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