Literatura de Verdade

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O elástico de Sérgio Rodrigues

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Prefiro o passe ao drible. Vejo mais beleza num toque de letra (capaz de enganar uma defesa inteira) do que numa humilhante e egoísta caneta. Mas o fato é que o drible define o futebol nacional, e, assim sendo, dificilmente se escreverá um livro mais futebolisticamente brasileiro que O drible, do Sérgio Rodrigues.

Tostão queria ter escrito O drible. Eu queria ter escrito O drible. Você queria ter escrito O drible — só não sabe ainda. Talvez não quiséssemos escrever o livro inteiro — você também implica com referências pop tipo Nacional Kid? –, mas eu ficaria satisfeito em fazer as firulas em torno do gol perdido (ou não marcado) mais bonito da história, com que Rodrigues abre (e fecha) o livro.

Copa do Mundo de 1970: Pelé passa por Mazurkiewicz sem tocar na bola e chuta cruzado, para fora. Seis páginas de segundos proustianos para introduzir a história mal resolvida do cronista esportivo aposentado Murilo Filho, apelidado pelo colega Nelson Rodrigues de “o Dickens de Campo Sales”, com seu único filho, um revisor/roqueiro frustrado de meia idade.

O reencontro entre pai e filho após 26 anos divide as páginas do livro com a história sobrenatural do craque Peralvo, obsessão de Murilo Filho — tido como potencialmente maior que Pelé, o jogador tem a carreira nos gramados abortada prematura e tragicamente. Tudo escrito no mesmo nível do bom Elza, a garota, e acima do curto demais As sementes de Flowerville, ambos de Rodrigues.

Sobre a comentada futebolística brasilidade do livro, fica o alerta: o autor vai puxar para um lado e sair pelo outro, e, mesmo avisado, o leitor vai cair. Escreveu-se por aí que o drible aplicado pelo livro é da vaca, mas este blog contesta e garante: é um elástico.

Written by Rodolfo Borges

Dezembro 2, 2013 at 7:57 pm

Antônio Vieira, o padre treloso

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Faz tempo que tento emplacar “treloso” num título, e a oportunidade não poderia ter se apresentado de forma melhor. Não apenas porque o padre Antônio Vieira era de fato encrenqueiro, mas porque boa parte de suas trelas ocorreu no nordeste brasileiro, onde o termo em questão faz mais sentido do que em qualquer outra parte do país — e eu aproveito pra voltar pro Recife, embarcado na nostalgia. Se você acha os padres Marcelo Rossi e Fábio de Melo saidinhos demais, reveja seus conceitos em “Antônio Vieira, jesuíta do rei” (Ronaldo Vainfas, Perfis Brasileiros, Cia. das Letras, 2011, 352 p.).

Se a melhor forma (ou mais fácil) de admirar Antônio Vieira é ler seus célebres sermões, é na compulsiva atuação política do padre que mora a saudável relativização do gênio. O religioso que, não se assuste, ainda hoje pode ser capaz de lhe convencer sobre a legitimidade da escravização de africanos, tinha uma queda por intrigas de poder, das quais invariavelmente saiu mal.

Ainda assim, Vieira praticamente governaria Portugal por dez anos, enquanto principal conselheiro do rei dom João IV. Durante os anos 1640, o padre ganharia o status informal de chanceler português e, seja pela falta de habilidade política de Vieira ou pela situação complicadíssima em que Portugal se encontrava, o resultado dessa diplomacia está longe de ser o maior de seus legados.

Que sirva de aperitivo se você for ler o livro e de informação se o assunto não lhe interessar mais: Antônio Vieira chegou a se posicionar contra a Igreja, contra o próprio Papa, ao encampar, em favor da recuperação econômica de Portugal, a causa dos judeus portugueses, impossibilitados de viver no país sob o risco permanente de serem condenados pela Inquisição. E essa não foi a única confusão em que ele se meteu.

O padre tomou o partido dos cristãos-novos (os judeus, que não podiam ser judeus em Portugal) de olho no dinheiro desses comerciantes, que poderiam ajudar a coroa portuguesa a sustentar suas disputas com a Espanha e com a Holanda — os holandeses haviam tomado Pernambuco dos portugueses anos antes. Vieira chegou a defender num célebre texto chamado “Papel Forte” que Portugal não tinha condições de enfrentar a Holanda pelo Nordeste brasileiro, e que seria melhor entregar de vez o território ou comprá-lo dos holandeses — tudo para poder concentrar forças na defesa de seu próprio território, ameaçado pelos espanhois.

Esse tipo de comportamento não contribuiu para o prestígio do jesuíta na colônia, principalmente depois que os rebeldes brasileiros conseguiram expulsar os holandeses.

No fim da vida, Vieira ainda atacaria de profeta, ou melhor, historiador do futuro, o que soa ainda mais pretensioso. Com base em textos proféticos, o padre anunciaria o advento de um Quinto Império, governado por Portugal, na seqüência dos impérios dos Egípcios, dos Assírios, dos Persas e dos Romanos. O detalhe é que esse império português seria liderado pelo ressuscitado dom João IV. A brincadeira só não valeu uma punição maior para o jesuíta porque a Inquisição portuguesa não era uma instituição apenas religiosa e Vieira tinha lá sua importância política.

O livro

E o que dizer, enfim, do livro de Ronaldo Vainfas? Que, por ter sido escrito por um historiador, pode soar enfadonho em algumas passagens, dada a riqueza de detalhes dispensáveis ao leigo. E que talvez seu maior pecado — indigno de punição pela Inquisição, diga-se — seja não ter dado mais atenção aos sermões de Vieira, algo perfeitamente justificado pela opção por tratar da militância política do padre e também pela extensão compacta do livro.

Para complementar a leitura, portanto, vale ler os sermões, e tem edição nova na praça, editada também pela Cia. das Letras, pelo selo Penguin. “Essencial Padre Antônio Vieira” reúne sermões, cartas e textos proféticos que dão conta da riqueza da obra do jesuíta. Se você não tem disposição ou dinheiro para gastar com mais um livro, fica a dica: como a obra de Vieira data do século 17, está praticamente tudo disponível na internet, e os textos podem ser encontrados no www.dominiopublico.gov.br e no www.brasiliana.usp.br/vieira_sermoes.

Na próxima vez que passar pela estante de religião da livraria, portanto, vê se dá uma chance ao Antônio Vieira, que nasceu em Portugal, mas se criou por aqui. E fica a minha propaganda também para os religiosos. Todo mundo já leu Ágape, vai. Quer sentir Jesus Cristo na veia? Lê os sermões do padre Vieira.

Antônio Vieira, jesuíta do rei
Ronaldo Vainfas, Perfis Brasileiros, Cia. das Letras, 2011, 352 p.

Essencial Padre Antônio Vieira
Organização Alfredo Bosi, Cia. das Letras, 2011, 760 p.

Written by Rodolfo Borges

Janeiro 27, 2012 at 11:40 pm

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