Literatura de Verdade

Um blog sobre livros e notícias. E notícias sobre livros.

Posts Tagged ‘racismo

Vendedores de ideias

leave a comment »

Intellecutuals_society_thomas_sowell1

As ações afirmativas fizeram mal aos negros nos Estados Unidos; o pacifismo contribuiu para a expansão da Alemanha nazista e a consequente Segunda Guerra Mundial; e a educação sexual nas escolas americanas aumentou a incidência de doenças sexualmente transmissíveis e de gravidez entre adolescentes. Está tudo em Intelectuais e Sociedade, de Thomas Sowell.

O livro, lançado em 2010, mira contra os intelectuais que Sowell classifica como “ungidos” (anointed, em inglês), em contraposição aos intelectuais de visão trágica ou pessimista. Enquanto os “trágicos” acham que o máximo que o homem pode fazer é lidar com a própria miséria e as limitações que a vida impõe, os ungidos acreditam que podem melhorar o mundo ou salvar a humanidade.

Os intelectuais ungidos têm a pretensão de acabar com o racismo, o machismo, a violência, os estupros, e tudo o mais de ruim que exista ou que eles enxerguem como mal. O problema é que o bem absoluto não existe e, mais do que isso, a boa intenção não basta, como mostra Sowell.

Na tentativa de ajudar os negros, por exemplo, os intelectuais americanos criaram e sustentaram ideias e políticas que contribuíram, ao longo do século 20, para piorar os índices sociais da categoria beneficiária de intervenções sociais — intervenções que, apesar de se mostrarem falhas, seguem sendo reproduzidas por aí.

Ao contrário de um engenheiro, que será responsabilizado por um prédio que cair, ou de um piloto, sobre o qual recairá a culpa de um acidente aéreo, o intelectual “ungido” segue imaculado, contudo, quando as consequências de suas ideias se provam desastrosas — como no caso do comunismo.

Reinações de Lobatinho — e uma nota de rodapé definitiva

with 6 comments

O boneco de pano

‘Caçadas de Pedrinho’ revisto e adequado aos padrões vigentes:

O Marquês de Rabicó deu o alerta: havia uma onça nos arredores do sítio. Liderada pelo bravo Pedrinho, a turma do Picapau Amarelo se armou de espetinhos e espingardas de cano de guarda-chuva e partiu para a caçada. O Visconde de Sabugosa, Narizinho, Rabicó e Emília faziam de tudo para mostrar que estavam calmos, mas o movimento de um arbusto próximo ao grupo deixou todos apreensivos e despertou o alerta:

– Gente, é a onça, fogo! – gritaram juntos.

Mas quando se aproximavam do mato de armas em punho, os caçadores tomaram um susto ainda maior com os gritos que de lá vieram:

– Pó parar, molecada! Todo mundo com a mão na cabeça, que a casa caiu! – gritou um homem barbado e de chapéu de Indiana Jones.

Trajados com fardas camufladas, fiscais do IBAMA pularam de dentro do arbusto e deram voz de prisão ao grupo, que vinha sendo monitorado devido a uma denúncia anônima. Na abordagem, as crianças aprenderiam da forma mais didática possível que atentar contra uma espécie ameaçada de extinção, como a onça pintada, configura crime ambiental, e seriam fichadas ali mesmo. Ainda ávido por dar provas de sua bravura, mas sem se dar conta da gravidade da situação, Pedrinho se apresentou como mentor do ataque.

Por sorte, naquele momento, passeava pela floresta um conselheiro tutelar que lembrou aos fiscais do IBAMA que o Estatuto da Criança e do Adolescente não permitiria que um menino daquela idade fosse encarcerado por caçar onças, mesmo que elas fossem consideradas sagradas. Por azar, o Visconde de Sabugosa, servindo de bode expiatório aos fiscais, seria identificado pelas autoridades como o corruptor dos menores ali presentes.

– E ainda por cima fantasiado desse jeito… deve ter material pornográfico em casa. Pedófilo duma figa! – decretou irado um dos investigadores, que foi contido pelos colegas ao tentar partir para cima do pobre sabugo algemado.

Os ânimos ainda estavam exaltados quando, durante a escolta do grupo para o Sítio do Picapau Amarelo, a  esperta e espontânea boneca Emília fez um comentário de que iria se arrepender pelos 80 anos seguintes:

– Mas quem foi que dedurou a gente? – ruminava. Ah!, deve ter sido aquela pretura da Nastácia – disse, expondo a implicância que tinha pela colega de sítio.

Os fiscais do IBAMA pararam naquele mesmo instante, como que congelados por um frio muito intenso. Apenas um deles conseguiu esboçar reação depois de alguns segundos de estátua; e para dizer:

– Presa em nome da Lei Afonso Arinos! – e ser apoiado efusivamente por todos os presentes.

A boneca descobriria naquele dia que já vinha há algum tempo infringindo a lei que proíbe a discriminação dos negros no Brasil, ainda que os únicos negros que ela conhecesse fossem Tia Nastácia e Tio Barnabé – e ela implicasse apenas com Nastácia. O clima azedou de vez. Antes que aquele fatídico dia desembocasse na interdição do Sítio do Picapau Amarelo pela Vigilância Sanitária, Tio Barnabé ainda seria indiciado por praticar a perseguição de portadores de necessidades especiais afro-descentes, vulgos sacis. O Marquês de Rabicó, também punido, foi condenado a seis meses de detenção num spa, para não mais servir de mau exemplo às crianças, e Dona Benta, multada por nunca ter assinado a carteira de trabalho de Nastácia.

“E a Cuca?”, perguntava-se a criançada. “A gente também vai pegar!”, garantiu a patrulha.

*Nota de rodapé definitiva do parodiador, que o tema é delicado:

Tivesse escrito sua obra infantil nos dias de hoje, provavelmente Monteiro Lobato seria coagido a fazer algo próximo a esta parodia das Caçadas de Pedrinho, alvo de ressalvas do Conselho Nacional de Educação por contar, pretensamente, com trechos racistas e antiambientalistas. A intenção foi boa, mas há no parecer um problema básico de compreensão do que é e para que pode servir a literatura. Interpretações como essa do CNE, aliás, explicam de forma eloquente por que se lê tão pouco no Brasil. A forma como nosso sistema educacional encara a literatura repele nossas crianças e jovens dos livros, relegando os adultos que eles virão a se tornar a um analfabetismo funcional que só encontra refúgio em enredos idiotizantes e vampirescos.

A literatura, senhores, existe exatamente para deseducar, ou, antes, para provocar no leitor a reflexão por meio do questionamento da realidade, por meio da imaginação. Ora, o melhor que um desses livros pode fazer por uma criança é liberá-la das amarras que lhe serão impostas inevitavelmente na escola, onde ela vai aprender por meio de material didático todas as regras que deve respeitar. A literatura, por sua vez, é (ou deveria ser) a válvula de escape, atribuição que temos relegado ao videogame e à televisão. Se formos acrescentar as regras e ideias da moda até às obras literárias por meio de alertas, elas perderão seu sentido enquanto arte. É essa a intenção? Exterminar os piratas e as caçadas ao tesouro porque dão maus exemplos? Já não basta a atualização patética do clássico Atirei o Pau no Gato?

“Quer dizer que devemos deixar nossas crianças indefesas expostas às maledicências de monstros racistas como Monteiro Lobato?”, questionará o preocupado pai. Eu responderia que sim, não sem antes ressalvar que tudo que achamos correto, como a igualdade entre os seres humanos e o respeito aos animais, deve ser ensinado, mas não por meio da demonização de livros ou autores. Isso é muito arriscado. Sabe por quê? Me dei ao trabalho de ler as Caçadas de Pedrinho e, mesmo conhecendo a fama de racista de Monteiro Lobato (que também paira sobre Machado de Assis) não identifiquei traços de racismo, a exemplo do ministro Haddad.

Uma das passagens mencionadas pelo CNE para justificar as ressalvas é dita por uma capivara: “Não é à toa que os macacos se parecem tanto com os homens. Só dizem bobagem”. Percebam que ela se refere aos homens, mas o pessoal do CNE preferiu ver aí uma ofensa aos negros – provavelmente porque a palavra macaco seja um dos impropérios racistas mais comuns. Em outro trecho, Nastácia é comparada a uma macaca pela agilidade com que subiu em pernas de pau; mais uma vez, vê racismo quem estiver disposto. Esse é o ponto central da minha ressalva a essas ressalvas educacionais. A boa literatura, meus caros, se presta a infinitas interpretações. Vejam o caso de “Um relatório para a Academia”, do Kafka. No conto, um macaco vestido como homem profere um discurso em que se congratula de, depois de capturado, ter passado por um treinamento, um processo de humanização que o permitiu chegar ao nível de fazer aquela competente apresentação. Há quem enxergue no texto uma crítica aos maus tratos causados pelo homem aos animais. Como Kafka era judeu, também é possível entender o conto como uma alusão à perseguição de seu povo. Bem, me digam o que um militante da causa negra diria sobre a obra.

Os técnicos da Secretaria de Políticas de Promoção e Igualdade Racial que recomendaram as ressalvas ao CNE estão incumbidos de zelar pela igualdade, mas cometem o mesmo erro dos movimentos nacionais pela afirmação dos negros. Mais do que identificar, denunciar e combater o racismo, buscam por ele e o encontram mesmo onde não há, num processo de retroalimentação. Estão condicionados a isso, como grande parte de nós, que crescemos assistindo a barbáries perpetradas contra e em nome de raças. O movimento negro desempenhou um papel sem igual na história da humanidade, de um brilhantismo ímpar, mas vem prestando desserviços no Brasil desde que extrapolou suas pretensões de igualdade de direitos civis para se transformar em um grupo organizado em busca de privilégios, como a inserção de sua causa em livros infantis ou a reserva de vagas em universidades que nunca tinham levado a cor em conta em suas seleções. Enquanto o movimento negro existir, aliás, as raças e, consequentemente o racismo, continuarão a existir – e talvez seja a hora de debater esse dilema também.

Antes que um leitor mais exaltado me acuse de racista por defender a extinção do anacrônico conceito de raças, faço questão de destacar que não nego a existência do racismo, nem questiono o passado de sofrimento de negros no país. O racismo existe e deve ser combatido, mas as estratégias utilizadas atualmente estão ultrapassadas. Elas não apenas impedem avanços concretos, como geram retrocessos. Minha sugestão para a educação das crianças? Explicar que não há raças – que até hoje só serviram para justificar ignomínias – e que as tonalidades de pele nos diferenciam, mas não a ponto de nos tornar desiguais.

Por fim, quando se estampa em um livro, mesmo que numa pequena nota de rodapé, que ali há conteúdo racista, esse conteúdo passará a existir, nem que o leitor tenha de criá-lo ao longo da leitura. Não identifiquei racismo em Caçadas de Pedrinho, mas, se alerta houver, terei de pensar no tema se o ler daqui a alguns anos. Inserir essa nota na obra seria pior do que extirpar o livro da rede pública e mais nefasto que qualquer tipo de censura. Apontar o racismo nela vai muito além de educar – significa transformá-la em racista. Daí para que o livro passe a ser utilizado apenas com o intuito de mostrar aos jovens como Monteiro Lobato foi racista é apenas um passo; e na direção do abismo.

Written by Rodolfo Borges

Novembro 6, 2010 at 12:27 am

%d bloggers like this: