Literatura de Verdade

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Obrigado por este momento

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Mais do que a desconstrução de um político, foi a desconstrução de um político socialista que me atraiu em Merci pour ce moment (Obrigado por este momento, em tradução livre), publicado em setembro deste ano pela jornalista Valérie Trierweiler. Ex-mulher do presidente da França, François Hollande, Valérie conta no livro, entre outras coisas, que Hollande costuma chamar os pobres de “sem dentes” e cultiva o que ela considera hábitos elitistas, desses que os socialistas gostam de criticar.

Desabafo da jornalista e ex-primeira-dama da França após revelação da traição que deu fim ao romance, o livro — já um best-seller, com 500 mil cópias vendidas — é eivado de ressentimento, mas sincero o bastante para entregar que, se Hollande não é lá dos namorados mais confiáveis (os dois viveram nove anos juntos, mas não chegaram a casar), a ciumenta e geniosa Valérie também não é uma companheira de fácil convivência. Nesse quesito, Merci pour ce moment é instrutivo para quem pretende manter um relacionamento em harmonia, mas voltemos ao poder.

Valérie diz que a chegada ao Palácio do Eliseu mudou Hollande. Do político atencioso e divertido que ela conhecera enquanto repórter da revista Paris Match sobrou apenas o presidente preocupado com a própria imagem — preocupação que aumentava à medida que sua popularidade despencava. O resultado do desinteresse crescente de Hollande pela mulher — remoído quase que a cada página — é um livro que escancara a intimidade do presidente da França.

E se a intimidade de qualquer pessoa não costuma ser muito bonita, no caso de um político, cujo ofício é se moldar à perfeição perante o eleitorado, o resultado é ainda pior. Hollande não demonstra simpatia nem pelos deficientes físicos, conta Valérie. O presidente não dá atenção às crianças, nem a causas humanitárias. E, a ainda segundo ela, o socialista não teria se sensibilizado nem durante o funeral de Nelson Mandela.

Nesta semana, o eterno candidato nanico à Presidência Levy Fidelix caiu na armadilha de se mostrar como é, durante debates na televisão, ao repudiar de forma grosseira relações entre pessoas do mesmo sexo. Como a maioria dos políticos é esperta demais para dizer o que realmente pensa, eu gostaria de agradecer a Valérie por momentos de revelação como este.

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Written by Rodolfo Borges

Outubro 3, 2014 at 12:26 pm

O eterno marido

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Substituição no Senado. Sai Demóstenes Torres, entra Wilder Pedro de Morais. Sai o falso moralista, entra o… bem, o próprio Wilder faz brincadeira com o fato de ser corno. E essa é sua maior credencial na chegada ao Senado: foi traído pela mulher com Carlinhos Cachoeira.

Convenhamos, se tem gente perdendo o mandato por ser amigo de Cachoeira, qualquer motivo para inimizade com o contraventor virou trunfo. Mas nem a perda da mulher para o pivô da Operação Monte Carlo foi capaz de blindar o novo senador. Pelo contrário.

Wilder terá de se explicar sobre suas relações com o bicheiro, demandam inclusive os colegas de DEM. Para além da constatação de que não está fácil fazer oposição ao governo hoje em dia, só Dostoiévski explica. Seria Wilder um eterno marido?

“O principal indício de semelhante marido é certo ornamento. Ele não pode deixar de ser portador de chifres, como o sol não pode deixar de iluminar; e ele não só ignora o fato: de acordo com as próprias leis da natureza, deve ignorá-lo”, filosofa o Vieltchâninov de Dostoiévski na tradução de Boris Schnaiderman.

Levando em conta a teoria, o senador Wilder estaria dando um passo além de Páviel Pávlovitch Trussótzki, o eterno marido dostoievskiano. Conhece a traição, e não se perturba, a ponto de colocar a carreira política à frente do que, na época de Dostoiévski, chamava-se honra.

E o que temos você e eu a ver com isso? Afora a curiosidade antropológica e literária, nada. Mas Wilder e outros 18 colegas de suplência se prestaram a esse tipo de exposição pessoal quando chegaram ao Senado sem, antes, passar pelo crivo público das urnas.

Por ter surgido no meio da história e não possuir qualquer credencial política, Wilder, conhecido por seus negócios em Goiás, está sentenciado a ser o eterno marido de Andressa Mendonça no Senado. Até que a perda do mandato os separe.

Written by Rodolfo Borges

Julho 21, 2012 at 8:39 pm

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