Literatura de Verdade

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O antigo regime e a revolução petista

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Lula reunido com o vice-presidente Michel Temer,o ex-presidente José Sarney e senadores do PMDB. Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula

Lula reunido com o vice-presidente Michel Temer,o ex-presidente José Sarney e senadores do PMDB, 12 de agosto. Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula

Na narrativa petista, a história do Brasil se divide entre o antes e o depois de 2003. Desde a posse de Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto, o país teria passado por uma revolução social nunca antes vista, com a elevação de milhões de brasileiros para cima da linha da miséria, graças, naturalmente, às políticas públicas dos governos do PT. A narrativa é boa e, tirando os exageros e delírios, não se baseia de todo em mentiras. Mas ignora e encobre o que uma foto voltou a denunciar em meio à crise política.

Alexis de Tocqueville escreveu seu O Antigo Regime e a Revolução para investigar de onde surgiu a Revolução Francesa e mostrar que, ao contrário do que pretendiam, os revolucionários de 1789 contribuíram para aumentar a concentração de poder na França. Ao sepultar o Antigo Regime, a revolução ampliou e endossou, sob o verniz da democracia, os tentáculos do Estado no bolso do cidadão. Mais de 200 anos depois, escrevo meu O Antigo Regime e a Revolução para mostrar que, sob o verniz da justiça social, o PT aumentou o poder do Estado, e não apenas por se dar ao luxo de pagar, com o dinheiro dos outros, R$ 855 mil por uma manifestação de margaridas a favor.

Apesar da celebrada ascenção da classe C, o sanduíche de mortadela segue sendo um bom argumento para levar defensores às ruas, mas ainda há — e sempre haverá — quem faça a defesa de graça. Afinal, o que é o desfalque de 19 bilhões de reais na maior estatal do país diante do fato de que o pobre pode andar de avião? E daí que as maiores empreiteiras brasileiras estão envolvidas no maior esquema de corrupção já desvendado por estas bandas, se todo mundo sabe que esses esquemas já existiam antes, desde o ‘“antigo regime”? Naquela época, contudo, os motivos da roubalheira não eram tão nobres quanto os de hoje.

Foi sob o manto das boas intenções, já que se sabe que a presidenta Dilma Rousseff é uma senhora honrada e correta, que, para boa parte da elite formalmente educada do país, os governos do PT puderam fazer tudo o que quiseram, de mega-esquemas de corrupção a pequenos grandes equívocos, como a voluntariosa tentativa de reduzir a conta de luz — que, meses depois, redundou no aumento da conta de luz. Quando a alma não é pequena, vale até se encaminhar para o cárcere de punho erguido.

Vez ou outra, contudo, a ligação dos revolucionários petistas com o antigo regime salta aos olhos, e aparece uma fotografia que reúne Lula, o símbolo da revolução, a expoentes daquela velha política que já não existe mais, que foi guilhotinada em 2003, como o deputado Paulo Maluf, o ex-presidente José Sarney ou o presidente do Senado, Renan Calheiros. É parte da democracia, dirá o revolucionário; sentado no trono.

Written by Rodolfo Borges

Agosto 22, 2015 at 7:36 pm

Obrigado por este momento

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merci

Mais do que a desconstrução de um político, foi a desconstrução de um político socialista que me atraiu em Merci pour ce moment (Obrigado por este momento, em tradução livre), publicado em setembro deste ano pela jornalista Valérie Trierweiler. Ex-mulher do presidente da França, François Hollande, Valérie conta no livro, entre outras coisas, que Hollande costuma chamar os pobres de “sem dentes” e cultiva o que ela considera hábitos elitistas, desses que os socialistas gostam de criticar.

Desabafo da jornalista e ex-primeira-dama da França após revelação da traição que deu fim ao romance, o livro — já um best-seller, com 500 mil cópias vendidas — é eivado de ressentimento, mas sincero o bastante para entregar que, se Hollande não é lá dos namorados mais confiáveis (os dois viveram nove anos juntos, mas não chegaram a casar), a ciumenta e geniosa Valérie também não é uma companheira de fácil convivência. Nesse quesito, Merci pour ce moment é instrutivo para quem pretende manter um relacionamento em harmonia, mas voltemos ao poder.

Valérie diz que a chegada ao Palácio do Eliseu mudou Hollande. Do político atencioso e divertido que ela conhecera enquanto repórter da revista Paris Match sobrou apenas o presidente preocupado com a própria imagem — preocupação que aumentava à medida que sua popularidade despencava. O resultado do desinteresse crescente de Hollande pela mulher — remoído quase que a cada página — é um livro que escancara a intimidade do presidente da França.

E se a intimidade de qualquer pessoa não costuma ser muito bonita, no caso de um político, cujo ofício é se moldar à perfeição perante o eleitorado, o resultado é ainda pior. Hollande não demonstra simpatia nem pelos deficientes físicos, conta Valérie. O presidente não dá atenção às crianças, nem a causas humanitárias. E, a ainda segundo ela, o socialista não teria se sensibilizado nem durante o funeral de Nelson Mandela.

Nesta semana, o eterno candidato nanico à Presidência Levy Fidelix caiu na armadilha de se mostrar como é, durante debates na televisão, ao repudiar de forma grosseira relações entre pessoas do mesmo sexo. Como a maioria dos políticos é esperta demais para dizer o que realmente pensa, eu gostaria de agradecer a Valérie por momentos de revelação como este.

Written by Rodolfo Borges

Outubro 3, 2014 at 12:26 pm

Vendedores de ideias

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As ações afirmativas fizeram mal aos negros nos Estados Unidos; o pacifismo contribuiu para a expansão da Alemanha nazista e a consequente Segunda Guerra Mundial; e a educação sexual nas escolas americanas aumentou a incidência de doenças sexualmente transmissíveis e de gravidez entre adolescentes. Está tudo em Intelectuais e Sociedade, de Thomas Sowell.

O livro, lançado em 2010, mira contra os intelectuais que Sowell classifica como “ungidos” (anointed, em inglês), em contraposição aos intelectuais de visão trágica ou pessimista. Enquanto os “trágicos” acham que o máximo que o homem pode fazer é lidar com a própria miséria e as limitações que a vida impõe, os ungidos acreditam que podem melhorar o mundo ou salvar a humanidade.

Os intelectuais ungidos têm a pretensão de acabar com o racismo, o machismo, a violência, os estupros, e tudo o mais de ruim que exista ou que eles enxerguem como mal. O problema é que o bem absoluto não existe e, mais do que isso, a boa intenção não basta, como mostra Sowell.

Na tentativa de ajudar os negros, por exemplo, os intelectuais americanos criaram e sustentaram ideias e políticas que contribuíram, ao longo do século 20, para piorar os índices sociais da categoria beneficiária de intervenções sociais — intervenções que, apesar de se mostrarem falhas, seguem sendo reproduzidas por aí.

Ao contrário de um engenheiro, que será responsabilizado por um prédio que cair, ou de um piloto, sobre o qual recairá a culpa de um acidente aéreo, o intelectual “ungido” segue imaculado, contudo, quando as consequências de suas ideias se provam desastrosas — como no caso do comunismo.

As crianças do Hamas

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“Eu me perguntava o que os palestinos fariam se Israel desaparecesse — se tudo não apenas voltasse a ser do jeito que era antes de 1948, mas se todos os judeus abandonassem a Terra Santa e ficassem espalhados de novo. E, pela primeira vez, eu sabia a resposta. Nós ainda íamos brigar. Por nada. Por uma garota sem o véu na cabeça. Para saber quem é o melhor ou mais importante. Para saber quem seria responsável por fazer as regras e ficaria com o melhor lugar”.

O trecho acima, retirado de O filho do Hamas, resume o livro, escrito e publicado em 2010 por Mosab Hassan Yousef, filho de um dos sete fundadores do Hamas, hoje considerado um grupo terrorista por grande parte da comunidade internacional. Apesar de nascer na Cisjordânia e ter tudo para virar um inimigo de Israel, Mosab mudou de lado e atuou como espião da Shin Bet, agência de segurança de Israel, por dez anos.

O livro deu origem ao documentário The Green Prince (O príncipe verde, codinome de Mosab enquanto espião israelense, inspirado na cor símbolo do Hamas e na filiação de Mosab a Sheikh Hassan Yousef), exibido no festival de Sundance em janeiro e com lançamento previsto para setembro nos Estados Unidos, e ajuda a entender o que acontece neste momento na Faixa de Gaza.

Enxergar Mosab pura e simplesmente como um traidor da causa palestina é tentar esquivar-se da evidência de que há uma disputa de perspectivas de civilização no Oriente Médio. Os métodos do Hamas — que são de conhecimento geral, mas, no livro, aparecem descritos a partir do lado de dentro — quase transformam em ingênuas as guerras travadas antes de Libérias e Vietnãs, quando proteger civis, mulheres e crianças ainda era uma prioridade.

Written by Rodolfo Borges

Agosto 4, 2014 at 11:22 pm

Tuma Junior, Celso Daniel e um romance policial

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Um notório sequestrador é resgatado de dentro da penitenciária por um helicóptero. Dois dias depois, o bandido organiza, nas ruas da maior capital do país, o sequestro de um prefeito do interior, cujo corpo é descoberto no dia seguinte num matagal. Um delegado linha dura, que foi transferido da capital por investigar figurões, é o primeiro a reconhecer o cadáver, e, mantido fora das investigações, acompanha o caso de perto.

O enredo está no capítulo “Toda a verdade do caso Celso Daniel”, de Assassinato de Reputações, que o ex-secretário nacional de Justiça Romeu Tuma Junior assina junto com o jornalista Claudio Tognolli. No livro lançado em dezembro último, além de apontar uma “fábrica de dossiês” no governo Lula, o delegado aposentado detalha bastidores da investigação sobre a morte do ex-prefeito de Santo André.

Mais de dez anos depois, o crime segue cheio de perguntas por responder e se mantém como uma mácula no projeto de poder do PT — até onde se sabe, Celso Daniel tinha a intenção de interferir de alguma forma nos esquemas que alimentavam a máquina petista em Santo André e, por uma série de atropelos, acabou assassinado.

O enredo policialesco se enriquece na pretensa confissão do hoje ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, e em coinciências detalhadas no livro. Segundo o piloto que resgatou Dionisio de Aquino Severo do Presídio José Parada Neto, em Guarulhos (SP), a empresa da aeronave prestava serviços ao PT.

Outra: Dionisio havia sido segurança de Sérgio Gomes da Silva (conhecido como “Sombra”), que dirigia o carro quando Celso Daniel foi sequestrado ao sair do restaurante Rubayat. Mais uma: sete pessoas ligadas ao caso, entre elas o garçom que serviu Celso Daniel e Sombra minutos antes do sequestro, foram assassinadas nos meses seguintes.

Não bastasse, Tuma Junior apresenta uma “prova inédita”: uma testemunha lhe relatou ter visto um veículo da prefeitura de Santo André circulando, na noite anterior, pelo mesmo local onde o corpo do prefeito foi encontrado, na rodovia Regis Bittencourt. Essa prova, como num bom romance policial, foi desconsiderada pelos investigadores.

Written by Rodolfo Borges

Janeiro 4, 2014 at 9:00 am

A grande família norte-coreana

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Jang Song-thaek, o número dois na hierarquia norte-coreana, foi executado sob a acusação de depravação, noticiou na última quinta-feira a agência de notícias oficial do país. A informação é bizarra o bastante para dispensar o detalhe de que Song-thaek é tio do líder máximo do país, Kim Jong-un.

Se você leu Escape from camp 14 (Fuga do campo 14, na tradução publicada por aqui), contudo, o parentesco entre o ditador da Coreia do Norte e o tio depravado perde um pouco da relevância no ocorrido.

No livro, o jornalista Blaine Harden conta a história de Shin Dong-hyuk, o único norte-coreano de que se tem notícia que, nascido em um campo de concentração, conseguiu escapar do cárcere.

Antes de enfrentar cercas elétricas de arame farpado e o frio glacial do inverno norte-coreano até a fronteira com a China, Shin delatou mãe e irmão, que planejavam, como ele faria anos depois, fugir do campo 14 — o mais rígido e controlado do país, com estimados 15 mil prisioneiros.

A delação, incentivada pelos carcereiros, foi feita na expectativa de conseguir benefícios (uns grãos a mais de milho), mas Shin acabaria punido junto com os familiares, com um ano de detenção na prisão do campo.

O fugitivo só viria a se envergonhar pelo que fez do lado de fora do campo, depois de aprender, com colegas sul-coreanos, que o que fez era condenável — ele nunca conseguiria superar a culpa pela delação. Apesar da educação europeia, a elite norte-coreana parece não ter desenvolvido esse tipo de sensibilidade.

Escape from camp 14 conta ainda como o regime do clã Kim sobrevive desde a Guerra das Coreias — a fraude mundial no mercado de seguros, que rendeu US$ 20 milhões só em 2003, é bem engenhosa — e detalhes sobre a tal depravação que levou Lil’ Kim a matar o tio, e que, ao que consta, é característica de família.

Written by Rodolfo Borges

Dezembro 16, 2013 at 4:52 pm

O elástico de Sérgio Rodrigues

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Prefiro o passe ao drible. Vejo mais beleza num toque de letra (capaz de enganar uma defesa inteira) do que numa humilhante e egoísta caneta. Mas o fato é que o drible define o futebol nacional, e, assim sendo, dificilmente se escreverá um livro mais futebolisticamente brasileiro que O drible, do Sérgio Rodrigues.

Tostão queria ter escrito O drible. Eu queria ter escrito O drible. Você queria ter escrito O drible — só não sabe ainda. Talvez não quiséssemos escrever o livro inteiro — você também implica com referências pop tipo Nacional Kid? –, mas eu ficaria satisfeito em fazer as firulas em torno do gol perdido (ou não marcado) mais bonito da história, com que Rodrigues abre (e fecha) o livro.

Copa do Mundo de 1970: Pelé passa por Mazurkiewicz sem tocar na bola e chuta cruzado, para fora. Seis páginas de segundos proustianos para introduzir a história mal resolvida do cronista esportivo aposentado Murilo Filho, apelidado pelo colega Nelson Rodrigues de “o Dickens de Campo Sales”, com seu único filho, um revisor/roqueiro frustrado de meia idade.

O reencontro entre pai e filho após 26 anos divide as páginas do livro com a história sobrenatural do craque Peralvo, obsessão de Murilo Filho — tido como potencialmente maior que Pelé, o jogador tem a carreira nos gramados abortada prematura e tragicamente. Tudo escrito no mesmo nível do bom Elza, a garota, e acima do curto demais As sementes de Flowerville, ambos de Rodrigues.

Sobre a comentada futebolística brasilidade do livro, fica o alerta: o autor vai puxar para um lado e sair pelo outro, e, mesmo avisado, o leitor vai cair. Escreveu-se por aí que o drible aplicado pelo livro é da vaca, mas este blog contesta e garante: é um elástico.

Written by Rodolfo Borges

Dezembro 2, 2013 at 7:57 pm

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