Literatura de Verdade

Um blog sobre livros e notícias. E notícias sobre livros.

Vamos ser campeão (sic)!

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“Vai lá de coração, vamos, São Paulo, vamos, São Paulo, vamos ser campeão!”. A falta de concordância ao final do grito de guerra nunca me incomodou muito. Instintivamente me refugio na poesia da convocação coletiva, de uma torcida, uma nação, para a glória de uma unidade, no singular: o clube. A gente enxerga sofisticação onde pode, a gente tolera o erro daqueles de quem a gente gosta. E esse preâmbulo linguístico todo é apenas para dizer que não gosto de pensar na possibilidade de meu filho trocar de time, tendo em vista que nasceu são-paulino. Também não me soa nada bem, contudo, obrigá-lo a torcer pelo clube mais vitorioso do país onde nasceu. Seria uma violência inaceitável, ainda mais quando a fase não vai bem. Os sádicos já me ameaçam, dizendo que Lucas será corintiano — e pode ser pior, tendo em vista que cresci em Brasília: ele pode vir a torcer pelo Flamengo, a nação do insuportável cheirinho. Seria trágico. E cômico. Porque, nesse caso, ironicamente, eu não apenas faria questão de levá-lo ao Itaquerão ou ao Maracanã, mas consigo me ver inclusive torcendo para qualquer desses dois times ganhar, só para ver o meu filho sorrir — me imagino mesmo celebrando, a partir de vídeos do passado, os chutes divinos do profano Marcelinho Carioca ou, num extremo aterrorizante (oh, o horror, a humanidade!), embarcando às gargalhadas em uma dessas piadas sem graça de que Obina é melhor que Eto’o. Mas por que pensar no pior? Temos tempo, ele não tem nem um mês de vida. Além do mais, a competição real virá de fora. É mais fácil meu filho querer frequentar o Santiago Bernabéu ou o Camp Nou. Mas nós acabamos de assistir a uma vitória acachapante do Tricolor sobre a Chapecoense depois de oito jogos sem vitória. É hora de aproveitar o otimismo, antes que ele passe — antes da próxima rodada. E eu ainda tenho muitas glórias que vêm do passado como argumento para mantê-lo ao meu lado na torcida. Como Lucas conseguirá resistir ao mito de Rogério Ceni, cujos feitos já eram irresistíveis antes mesmo de serem emoldurados pelo passar do tempo? A elegância de Raí em campo também resistirá aos anos de desgaste como dirigente, isso é certo. As arrancadas de Juninho Paulista e de Denilson, o vigor exagerado de Lugano. Também tem os títulos internacionais, o tricampeonato brasileiro de Muricy, discípulo do mestre Telê, outro grande ativo do clube… Mas a minha cartada final são os gols impossíveis de França. E, quem sabe, de tanto assisti-los e de tanto me ouvir falar no assunto, Lucas não descubra enfim a gravação do lance em que Françoaldo fingiu um lançamento no meio de campo em um jogo contra o Palmeiras e a câmera da Globo acompanhou, humilhada, uma bola invisível, voltando constrangida no segundo seguinte para descobrir que o craque desengonçado não tinha soltado a bola. Quem sabe meu filho não encontre esse lance e tire enfim da minha cabeça a impressão de que eu o inventei, num delírio futebolístico inesquecível de quem via os jogos do São Paulo à distância, pela televisão. Meu destino era torcer para o Sport Club do Recife. Assim como meu pai, como grande parte da minha família. Mas o acaso nos fez passar por São Paulo no início da década de 1990. O São Paulo Futebol Clube estava arrebatador. Eu e meu irmão nos convertemos naturalmente, mesmo indo morar em Brasília logo depois — ou principalmente por ir morar em Brasília, cemitério do futebol —, e acabamos contagiando nosso pai, nossa irmã, nossas mulheres. Meu pai ainda torce para o Sport, assim como todos nós, mas é o São Paulo que a família toda segue, é nele que prestamos mais atenção. É por onde eu me permito perder o controle. Xingar, ofender, desabafar, praguejar. O controlado descontrole do futebol, confinado dentro das quatro linhas. Mas é também onde eu aprendi a me controlar, a me equilibrar, a dividir esforços, compartilhar missões, focar objetivos, raciocinar rápido, antecipar cenários e reagir quase que instintivamente, mas de forma calculada. Foi onde eu aprendi a ganhar e perder desde muito cedo, a reconhecer e aceitar meus limites, a me relacionar, onde aprendi a prestar atenção nas outras pessoas, a decifrar suas intenções, ler seus pensamentos. É muito difícil dissimular dentro de campo. A bola expõe as inseguranças, a confiança excessiva, o egoísmo patológico, e pune cada um desses defeitos. Quem estiver disposto a conversar com ela, a partilhá-la, recuar para avançar na hora certa, dar o passe para quem estiver mais bem posicionado, sairá de campo lapidado, pronto para escapar dos carrinhos e caneladas da vida. Não precisa nem virar profissional. E, sob alguns aspectos, é até melhor não se profissionalizar, para não perder o foco do jogo, do desafio, das trocas, da amizade, das brincadeiras, da camaradagem, do companheirismo, do respeito — não me vem cavar falta na pelada, e só vale pedir o VAR se for de sacanagem. Depois de anos querendo ser jogador de futebol, eu percebi que, para ser profissional, é necessário que sua vida dependa disso — financeira ou psicologicamente. Meus pais não permitiram que isso acontecesse, e eu posso apenas agradecer. O Brasil perdeu um segundo volante de drible curto e passe longo. Terá de se contentar com um escritor capaz de celebrar um ou dois títulos na carreira.

Written by Rodolfo Borges

Julho 24, 2019 at 12:33 pm

Funcionário terceirizado pela Lucas Corp.

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Retorno ao trabalho após a primeira semana de pai e, apesar do cansaço, me deparo com um intrigante sentimento de empolgação. Quero abraçar todo mundo. Quero ajudar todo mundo, consolar todo mundo, divertir, entreter, mais do que o normal, mais do que nunca, e meu receio é exagerar, atrapalhar, me tornar impertinente. Quero celebrar. Tenho vontade de fumar um charuto, tossir por causa do charuto, me arrepender por ter fumado o charuto, ser obrigado pela mulher a tirar o cheiro de charuto da roupa do bebê, botar a caixa de charutos pra vender no Mercado Livre e, após dias de insucesso, acabar jogando os charutos na lata do lixo. É que eu estou sob nova direção, funcionário terceirizado pela Lucas Corp, uma start-up criada há pouco mais de uma semana que está revolucionando o meu mercado. Sigo com as mesmas competências, mas muito mais vontade, muito mais responsabilidade. E olha que, modéstia às favas, como diria um ministro supremo, (informe publicitário:) disciplina e disposição nunca foram um problema para mim. Mas o CEO da nova start-up deve estar colocando algum tipo de energético na água da empresa, porque de repente eu senti vontade de pegar o caminho para Wigan Pier ao lado de George Orwell e extrair carvão por 30 dias seguidos — sem direito a hora extra ou intervalo para o almoço — com um sorriso lunático estampado no rosto enquanto o misericordioso escritor, que lamenta as dores nas suas juntas e limpa as mãos sujas de manteiga no carrinho de transporte do carvão, tenta me convencer de que o problema do socialismo é o socialista. Eu concordo, respondo a Georgie, mas digo que ele pega pesado com os socialistas, porque o problema do socialismo é maior, mais amplo, é o próprio homem, mesquinho, individualista, medroso, desconfiado, irascível, indomável, imprevisível, agressivo, rebelde, potente, independente, inventivo, criativo, surpreendente, livre, maravilhoso, fascinante, apaixonante. Ao deixarmos as minas de carvão da Inglaterra do início do século 20, cruzamos com Hayek numa encruzilhada e, no meio do redemoinho, pegamos a contramão do caminho da servidão, rumo a 2084, sem duplipensar; aliás, com um pensamento só: trabalhar para pagar o leitinho da criança. Será esse o verdadeiro motor do sistema? Minúsculos burgueses nos fazendo levantar da cama todos os dias com um propósito que obriga (ou permite) encontrar sentido em qualquer serviço, do mais burocrático apertar de um parafuso ao mais empolgante carimbar de duas vias com firma reconhecida? Ah, Engels já fez muita manha sobre isso, esperneou um livro inteiro sobre a origem da família, da propriedade privada (e do penico) e do Estado. Convenhamos, quem gosta de comer brócolis? Quem gosta de ter hora para dormir, tempo contado para jogar videogame? Michelzinho Foucault giraria seu fidget spinner eternamente se não houvesse alguém para vigiar e puni-lo. Mas é para o seu bem, Michelzinho, larga essa chupeta. Ouvi de uma amiga que minha satisfação — e a euforia de meus pais e sogros — com a chegada do meu filho se deve à perspectiva da descendência, da permanência, o cumprimento do destino natural, evolutivo. Concordo. Tenho andado muito naturalista, darwineio o dia inteiro sobre os mistérios da evolução. Enxergo origens ancestrais em tudo e todos e me acalmo. As coisas não são do jeito que são porque algumas pessoas más ou boas assim o determinaram, mas porque, por pior que seja, é o melhor que conseguimos fazer. Nessa perspectiva histórica, me percebo no meio de um caminho muito longo, que eu não teria tempo de percorrer sozinho, porque me faltariam anos, décadas, séculos, milênios — será por isso que as questões políticas se tornaram tão urgentes, só porque passamos a ter menos filhos? Dei mais um passo, portanto, e, por isso, não posso me permitir dar sequer mais um passo em falso, até que a descendência possa andar com as próprias pernas. É por isso que agora me preocupo mais com a minha saúde e fiz até um seguro de vida. Por isso também que passei a atravessar a rua apenas com o sinal fechado, mesmo sem ter carro passando. Não há seguro de vida que compense meu tipo ou tempo de serviço na Lucas Corp. É por isso que eu falo nisso todo dia. A herança, a segurança, a garantia, pra mulher, para o filhinho, pra família, eu falo nisso todo dia.

Written by Rodolfo Borges

Julho 22, 2019 at 9:59 am

A Batalha de Waterlucas

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A heroína e o Napoleão subjugado (ou quase)

A moda agora são as heroínas mulheres. É a questão da representação, comenta-se. Uma questão tão premente que elas receberam até licença para matar, 007. É a revolução da revolução da revolução feminista, que depende do resgate de figuras femininas históricas apagadas pela história. Eu entendo a ideia, e talvez até concorde com ela na essência, mas não consigo deixar de achar tudo meio besta — tão besta, mas tão besta e obsessivo e enganoso, porque fundado em uma perspectiva reduzida e destrutiva do mundo e das relações, que comecei a pesquisar e pesquisar para escrever um livro sobre o assunto. Não consigo enxergar as pessoas como competidoras, ou apenas como competidoras, inevitáveis opressores ou oprimidos, e não consigo me enxergar do lado oposto às mulheres no octógono da vida. Talvez porque eu conviva há algum tempo com uma delas, uma dessas heroínas, e conheça muito bem sua história. História que, aliás, a precede: é reconhecida por seus feitos no exterior, suas façanhas no campo do adversário. Uma mulher que já rodou meio mundo dando notícias da vida no Haiti, em Cuba, no Paraguai, no Canadá, em praticamente todos os Estados Unidos e desunidos da América. Uma mulher que me pegou pela mão e me mostrou o mundo. Uma mulher que já sobreviveu a duas cirurgias enquanto tudo o que eu podia fazer era torcer para que tudo desse certo. Mas agora eu percebo que posso fazer mais. Eu posso contar sua história. A história de um feito íntimo, mas muito mais valioso do que todas suas notórias vitórias. Longe da licença para matar, muito longe, o oposto: a licença para viver. Poucos conhecem como eu os detalhes da Batalha de Waterlucas. Sou um sobrevivente, uma testemunha ocular, auricular, olfativa, gustativa, tátil, emocional, psicológica, de um conflito cuja origem durou nove horas; nove horas de tentativas de fazer o oponente sair da toca. Nossa heroína se preparou durante nove meses para suportar essas nove horas. Baterias de exercícios, alimentação balanceada como nunca — zero Coca-Cola —, pesquisa exaustiva sobre as táticas do inimigo. Nada podia prepará-la, contudo, para a estratégia dissuasiva do pequeno general, da estatura de um Napoleão Bonaparte (literalmente, pelo que consta), de se fingir de morto. Mas a general Isabel reagiu logo. Não comprou a artimanha do adversário e persistiu. E foi além. Misericordiosa, alimentou o pequeno tirano, oferecendo seus próprios seios, mesmo quando ele orgulhosamente os recusava, mesmo quando membros do seu próprio exército de enfermeiros a aconselhavam a descansar, a poupar as energias para os próximos desenlaces da batalha. Mas não teve retirada da Laguna, porque isto não é guerra paraguaia, é autêntica, original. Era como se ela defendesse a proposição de que todos os bebês devem ser criados iguais, e que aquela disputa em particular testava se sua relação com o mundo poderia durar; mas o que suas ações diziam mesmo era que o mundo poderia não se lembrar do que foi dito naquela maternidade, mas nunca conseguiria esquecer o que foi feito, em nome de todos aqueles que precisaram morrer para que esse bebê nascesse vivo, como num renascimento da liberdade, do povo, pelo povo e para o povo — talvez esta última parte seja de Abraham Lincoln, mas o espírito é esse. Um espírito de liderança, sacrifício, obstinação, bravura, resistência, resignação, paciência e habilidade para esgrimir o próprio peito e a chupeta em longas jornadas noite adentro enquanto cura as feridas da batalha, enquanto recobra as forças dando a impressão de que nunca as perdeu, protegida atrás de um estojo de maquiagem, um escudo de maquiagem, um cinto de inutilidades muito bonitas. Ao contemplar essa batalha íntima de tão perto, de forma tão intensa, dando cobertura sempre que possível, como um soldado raso afogado nas profundezas do amor, eu me dou conta de que me enganei ao imaginar que ela já tinha me mostrado o mundo todo. Distraído por monumentos e sentimentos, eu não atentava para o fato de que um outro mundo inteiro poderia sair de dentro dela.

Written by Rodolfo Borges

Julho 18, 2019 at 12:25 pm

Melhor do que o silêncio só Lucão

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A quem eu quero enganar? Foi mais para efeitos de rima (ele nasceu grande, mas é tão pequeno), e a infâmia desse trocadilho eu compartilho com a mãe; foi da boca de Isabel que saiu o título. E, de qualquer forma, não dá para perder a harmonia, mesmo depois que João Gilberto foi embora, principalmente depois que João Gilberto foi embora. Lucas ainda não aprendeu a apreciar o silêncio, não sabe onde seu corpo termina e onde o mundo começa, não construiu sua armadura, a casca que vai lhe permitir ficar sozinho à noite, mesmo que rodeado pela família inteira, mesmo que cheio de amigos no Facebook e curtidas no Instagram e matches vazios no Tinder; não desenvolveu a capacidade de se entreter sozinho, de domar os medos, de submeter os medos, trucidá-los, chamá-los para passear, passar a mão na cabeça deles, dar papinha, tadinhos dos medos, tão fraquinhos — e seu pai guarda uma biblioteca inteira só para isso, só para aprender a subjugar o medo. Então ele chora como se não houvesse amanhã, como se não fosse dia de semana. Eu sei que é preciso perdoar. Foi você que me ensinou que um homem como eu, que tem por quem chorar, só sabe o que é sofrer se o pranto se acabar. Madrugada já rompeu, e, entre um soluço e outro, em meio a choros homéricos, faraônicos, monumentais, colossais, épicos, pavarótticos, eu cantarolo baixinho, sussurrando, numa nota só, eu e o pato (é mesmo um desacato): “pobre de quem não entendeu que a beleza de amar é se dar, e só querendo pedir nunca soube o que é perder para encontrar”. Madrugada…

Written by Rodolfo Borges

Julho 17, 2019 at 9:00 am

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À meia-noite mamarei sua alma ou Guia informal de amamentação para pais e adjacências

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Mamarei sua alma, e você vai gostar

Você deve agir como um prático, manobrando um transatlântico minúsculo em direção ao encaixe perfeito no porto, no peito. A boa execução da sua tarefa depende do reconhecimento de que você é um acessório, um opcional, e se essa lição for bem apreendida, valerá para as outras tantas funções que você exercerá em relação a sua família — e por que não incluir o seu país ou o mundo inteiro nisso? Como seu bebê recém-nascido não enxerga direito e, ao contrário de boa parte dos mamíferos, não consegue sequer se locomover sozinho nos primeiros meses de vida, você deverá atuar como seus olhos e pernas e nariz, e terapeuta. Os youtubes e spotifys da vida estão repletos de sons do útero para executar terapia de regressão, até a semana passada — alguns dos sons oferecidos se assemelham mais a uma correnteza, mas o importante é que o bebê cai no truque. A tática do charuto, em que você enrola seu bebê em panos como se fosse um escravo, ou melhor, um satisfeito, saudável, bem alimentado e livre cubano formado em medicina, também o ajuda a relaxar — como eles não controlam as mãos e as pernas, sempre que estão com os membros soltos sentem-se em queda livre, porque perderam a referência do útero, comenta-se. O mais relevante, contudo, é obedecer à mãe do seu filho. Faça tudo o que ela quiser: alcance um copo d’água, mude o canal da televisão, massageie seus pés, vá comprar pão, ponha a mesa do café da manhã, tire a mesa do café da manhã, ponha a mesa do almoço, tire a mesa do almoço, cozinhe (antes disso, é aconselhável aprender a cozinhar), peça comida pelo aplicativo, cante uma música para acalmar o bebê, componha uma música para acalmar o bebê, sapateie para acalmar o bebê, recite Shakespeare para acalmar o bebê, encene Les Misérables para acalmar o bebê, ganhe um Prêmio Tony por acalmar o bebê. Para além disso, você não terá muito o que fazer. A não ser que a mãe esteja enfrentando algum problema para amamentar. Nesse caso, você não terá de lidar apenas com a irritação do bebê, mas com a decepção da mãe. Você precisará lembrá-la do óbvio: a culpa não é dela, nem do seu filho, nem de ninguém. Não se trata de culpa, mas da alimentação do bebê, que, quando feita de mamadeira, é mais fácil, apesar de oferecer menos do que o leite materno e o contato com a pele da mãe têm para dar. Difícil é ajudar a mãe a lidar com a frustração de suas expectativas. É por isso que você tem de ser perfeito ao lado dela. Não é agora que você vai virar um problema, certo? Ela já vai estar cansada o bastante por não poder revezar a amamentação com o marido ou a mãe dela ou qualquer outra pessoa no mundo todo, então você pode trocar as fraldas do bebê, e oferecer-se para embalá-lo à espera do arroto — sempre se ofereça para segurá-lo à espera do arroto. E esteja ao lado dos dois sempre que possível, para fins de apoio moral. Principalmente quando à meia-noite ou às 2h ou 4h da madrugada ele acordar verde de fome e esticar a boquinha para mamar suas almas. Se o peito não for o bastante para aplacar a ira do pequeno Hulk, não é hora para heroísmos. A famigerada chupeta é uma espécie de kriptonita para o Hulk ou algo assim — papai nunca foi muito bom de super-herói. Uma arma de acalmação em massa. Os anglo-saxões não a chamam de pacifier (pacificadora) por acaso. Mas o melhor de tudo é que, fora uma conversa ou outra com amigos que tiveram filhos, as dicas das enfermeiras da maternidade, os palpites dos parentes e algumas centenas de buscas por instruções de conduta na internet, você vai se dar conta de tudo isso que eu falei por conta própria. Foi assim comigo. Escreva seu próprio manual. Mas, pelo amor de Deus,  não pare de cantar. I dreamed a dream in time gone by / When hopes were high and life worth living / I dreamed that love would never die / I dreamed that God would be forgiving. Desce o pano (ou a fralda, o que estiver mais à mão — rápido)!

Written by Rodolfo Borges

Julho 16, 2019 at 9:35 am

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Pais e filhos

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Carta gêmeos

Você pode ler esta carta transcrita lá embaixo

Sabia
Gosto de você chegar assim
Arrancando páginas dentro de mim
Desde o primeiro dia
Lola, Chico Buarque

“Agora estamos em Coimbra. Os quatro debaixo do cobertor. Faz um frio danado. E chove muito lá fora. Acabo de chegar em casa, depois de saber que não fui aceito na Universidade, como estava combinado. Vou ser apenas aluno-ouvinte, não vou poder concluir o mestrado. A bolsa de estudos pode ser cortada, mas não posso voltar ao Brasil, pois vendi tudo, a mesa, a geladeira, o fogão, as cadeiras, a minha bicicleta. Pedi demissão da empresa, larguei tudo. Não posso voltar agora, não agora. Tenho que ficar pelo menos um ano, não posso desistir assim tão fácil. Apesar da chuva, apesar do frio, apesar de todo medo, vou conseguir dormir. Não sei se vai amanhecer amanhã, não sei como vamos sobreviver aqui. E tenho que acordar cedo para levar os meninos à escola. Tenho pavor a trovões, relâmpagos, desde criança. Talvez adiante rezar, pedir a Deus, implorar que algo bom aconteça. Mas, como imigrante, não posso vacilar, nem que seja para mim mesmo. Vou atrás de emprego, amanhã mesmo, não vou me entregar, não posso”. Esse era meu pai, lembrando de uma noite qualquer em Portugal, ao contabilizar um ano como sobrevivente na Europa, no fim da década de 1980. Ele registrava, em sua autorreflexão, que, apesar do receio, a bolsa nunca deixou de chegar, “mesmo depois de avisar ao governo sobre o imprevisto que aconteceu, por imprudência do meu professor, orientador da tese que desenvolvi para conseguir a matrícula, ainda que pela metade”, e eu não sei dizer se celebro um erro ou um acerto do Estado brasileiro. Ele dizia também que nunca deixou de “fazer renda, com trabalhos avulsos, como defesa em caso de a bolsa não chegar, uma garantia de que não iria nos faltar nada durante a temporada longe de toda família” e refletia: “Hoje sei que a tempestade passa, que o sol volta a aparecer, não sei como, mas ele volta. Assim, do nada, como ele some, ele volta.” Um testemunho de dignidade, de humanidade, de fraqueza e força e coragem, de resistência, teimosia. Em carta de Brasília a Recife datada de 15 de fevereiro de 1987, enviada a meu avô pouco antes de partir sozinho, para preparar o terreno para mulher e filhos, ele diz “papai, lá se vou em mais uma aventura”. “Agora, é a Europa. Não se preocupe. Vou tentar aprender mais. E conseguir meios para ajudá-lo ainda mais. A todos: você, mamãe, Lucila, Luciane e Romildo”. Meu pai admite para seu pai que não consegue fugir do teatro, diz que é isso que o faz feliz, que em Portugal terá mais tempo para estudar. Agradece a educação que recebeu — e eu me sinto obrigado a fazer o mesmo aqui, agradecer ao meu pai e à minha mãe por tudo o que sei e, mais importante, por tudo o que quero saber, porque apesar dos trovões e dos relâmpagos, nós fomos para a escola. Na carta, meu pai diz que se sente tão empolgado quanto na vez em que escreveu sua primeira peça no colégio,  que espera que, como ocorreu naquela época, seus pais estejam na primeira fila o apoiando. Quando escreveu isso, ele era mais novo do que eu sou hoje, então inverto tudo a ponto de ficar meio tonto e só consigo pensar, ao ler seu frescor e sua ilusão concentrados no papel: ah, os jovens! E me deixo envolver pela memória de um tempo em que ainda se escrevia no papel, uma plataforma que segue dando um jeito de sobreviver aos anos, às décadas, às mudanças de apartamento, mesmo sem estar na nuvem, de dentro de uma gaveta, esquecido até ser reencontrado, o tempo redescoberto, o sentimento vivo, eterno, infinito, no papel amarelado, velho, cujo desgaste físico opera a mágica de engrandecer algo já fora da escala métrica, fora de medida, a lembrança que alimenta, nutre, abastece, revigora, enche de energia, de alegria, que consola, emociona, empolga, impulsiona, ameniza os medos — já foi muito mais difícil — e inspira a honrar o passado, o legado, a história, que indica um rumo, que dá sentido aos gestos mais simples, a um bocejo, um arrotinho, um soluço, uma linguinha minúscula e nervosa, o choro desesperado e desesperante, miudezas que, por sua vez, dão sentido à vida, que permitem suportar derrotas, frustrações, humilhações, porque há algo maior, ancestral, que descansa sobre seus ombros e precisa, deve seguir, e depende de você para seguir, do seu empenho, da sua força, da sua força de vontade, do seu caráter, do seu autocontrole e da sua serenidade, mas também do bom humor, da capacidade de rir quando os outros choram, de se divertir enquanto os outros praguejam e lamentam um destino que ignoram ser passível de mudança, um destino que entregam de graça nas mãos de quem maliciosamente se oferece para pensar por eles com objetivos grandiloquentes e artificiais, capazes de seduzir exatamente por conta de sua impossibilidade, sua perfeição mefistotélica, do delírio prepotente de quem goza do luxo de se preocupar com coisas como a democracia, a mudança climática, a harmonia entre os sexos, a abolição dos gêneros, a metafísica de Hegel ou Kant ou o materialismo aleijado de Marx, o eterno retorno da ameaça fascista ou comunista, jogos mentais para passar o tempo, um strip poker da alma no qual as apostas não podem parar, a degradação viciante da política vazia, do discurso inócuo, masturbatório, autocongratulatório, vaidoso, estéril e, portanto, enganoso, frustrante, poço sem fundo de ressentimentos e carniça para os urubus congressuais em terno de cordeiro. Mas e daí? Eu quero saborear tudo, mesmo o que há de pior, mas principalmente celebrar cada empecilho, cada obstáculo superado, o destino da miséria subjugado, o sucesso apesar de todos os pesares, e erguer um estandarte em nome de cada degrau subido ou descido ou desabado ao longo de anos, décadas, séculos. Talvez eu devesse estar bebendo em vez de escrever, para aceitar e abraçar a nova vida por meio da catarse física — não existe apenas uma forma de processar as mudanças. Mas eu aprendi a fazer assim, escrevendo. Talvez porque meu pai não conseguiu esquecer um trauma, que conta e reconta: “Meu tio era alcoólatra. Quando criança ia com minha mãe buscá-lo desmaiado no meio da rua. Todo sujo. Não suportava o fedor que vinha da roupa dele, mas me sensibilizava o gesto de minha mãe em resgatá-lo pra nossa casa. No dia seguinte, ele era outra pessoa, torcedor do meu time de futebol, amável com a esposa e os filhos que, no começo, vinham visitá-lo. Depois sumiram. Fugiram para São Paulo. E vi meu tio de terno e gravata, de cócoras, no quintal lá de casa, chorando. Deu-me bolinhas de gude e pediu que não contasse pra minha mãe. Estava desempregado, vim saber anos depois. Como toda criança, não entendia como a vida funcionava. Por que uma pessoa tão boa como o meu tio vivia daquela maneira? Ouvia ele dizer na hora do almoço que as coisas iriam mudar, pro bem de toda nossa família, mas não foi bem assim. Meu pai foi muito paciente, minha mãe comprometeu até o casamento, minha avó rezava todo dia a oração das causas impossíveis…E meu tio foi parar num hospício. Passei a temer os domingos, dias de visitas. Ele gritava para que a minha mãe o tirasse de lá, que ele não era doido, e que precisava ver os filhos, e que a vida assim não valia a pena. Na década de 1960, o tratamento para alcoólatras era terrível, desumano. Eram hospitais públicos, superlotados. O maior do Recife ficava no bairro chamado Tamarineira, a árvore que dá a fruta tamarindo, que eu adorava. Azedinha. Mas Tamarineira passou a ser sinônimo de loucura. De lugar de doido. ‘Vou te mandar pra Tamarineira!’ Era assim que as pessoas falavam quando queriam ofender as outras. Mas o meu tio conseguiu sair. Foi morar com a minha avó numa casa próxima à nossa. Passava lá em casa para almoçar e me levava pra jogar no bicho. Jacaré, cobra, leão. Dizia que se ganhasse iria parar de procurar emprego, parar de beber, e compraria uma passagem de ônibus para resgatar a família que fugiu para São Paulo. Imaginava meu tio chegando lá, abraçando meus primos e tudo voltando a ser como antes. Mas à noite ouvia meus pais falando que a situação só piorava e que minha mãe daria umas boas porradas na esposa fugitiva se cruzasse com ela. Fui vendo que tem coisa que a gente não conserta nem com reza braba. Não tem jeito. E que a vida não é como a gente acha que é, mas, sim, como ela é. A vida é como ela é. Meus pais pagavam para uma garota dar assistência ao meu tio e à minha avó na casa alugada em nosso bairro. Ela chegou cedo naquela manhã de feriado e ficou brincando com a gente sem falar muito. Eu e meus irmãos não estranhamos nada. A vida das crianças é brincar. Jamais imaginaríamos que uma tragédia estava para ser anunciada. Era um feriado, dia especial, os pais ficam próximos, o ritmo normal diminui, não se percebe muito o lado ruim. Até a garota dizer, depois do almoço, que o meu tio estava vomitando muito quando ela saiu da casa da minha avó. Quando meus pais chegaram lá, não dava mais tempo. Meu tio havia bebido veneno pra matar rato. A vida é como ela é.” Hoje, quando ainda tento digerir a chegada tão recente e tão intensa do meu filho, em quem acabo de dar o banho inaugural em casa (que, aliás, foi considerado um sucesso, obrigado, de nada), eu tenho ainda mais vontade de ouvir do avô que acaba de nascer como eram as coisas quando ele era apenas filho ou apenas pai e filho, e essa vontade talvez seja a melhor das táticas evolutivas desenvolvidas pela natureza, porque, depois de virar pai, eu não quero mais viver apenas a minha vida, eu quero viver todas as vidas, eu quero reviver todas as vidas, conhecer o passado em que me escoro para poder evitar os erros e tentar repetir os acertos. Ouvir tragédias e epopéias, dificuldades e facilidades, sucessos e fracassos. E repetir até o mundo entender: quero saborear tudo, mas especialmente celebrar cada empecilho, cada obstáculo superado, o destino da miséria subjugado, o sucesso apesar de todos os pesares, e erguer um estandarte em nome de cada degrau subido ou descido ou desabado ao longo de anos, décadas, séculos (você já leu isso, mas leiamos de novo). Quero fazer um samba-enredo incompreensível em nome do pai do meu pai, que colecionava os discos carnavalescos na garagem de casa e deitava na rede para acompanhá-los enquanto lia os encartes, um samba-enredo que remeta aos sumérios e misture Ramsés com Ulysses Guimarães sob a raiz quadrada de Paulo Maluf com ascendente em Getúlio Vargas (e os filisteus, minha Sapucaí!?). Eu quero andar quilômetros e quilômetros sem fim, como o pai da minha mãe, até ninguém saber onde eu estou, até que eu consiga descobrir onde eu quero estar. Eu quero servir um simples guaraná na garrafa de vidro como se fosse o ato mais especial do mundo (porque era o ato mais nobre do mundo) como a mãe da minha mãe, quero fazer feijão com abóbora e macarrão como a mãe do meu pai. Eu quero gritar baixinho, para não acordar o bebê. Quero escrever para sempre ou pelo menos até que meu filho acorde para mamar e apenas depois que ele tiver arrotado e cochilado de novo. Eu não quero mais deixar de estar à beira de chorar por qualquer coisa, qualquer lembrança, qualquer manifestação de afeto, não quero deixar este estado de me sentir vivo como nunca antes, completo, repleto, estufado, empanturrado de felicidade, sem fritas, sem carro do ano, sem promoção, sem prêmios, sem glórias mundanas, apenas com a contração involuntária do rosto do meu filho recém-nascido, que meu cérebro processa ingenuamente como o maior sorriso do mundo. Eu acho que é isso que eles chamam de família. Uma família que respira, engasga, persiste, que sente, que se expande, que se espalha, que se lembra, que se fala. Uma família como a sua. Como qualquer outra.

Bonus track: O que segue abaixo é uma reprodução da carta que ilustra este texto. Ela registra o momento em que meu pai e minha mãe descobriram que teriam gêmeos. Sete anos depois, viria Clara, que não assustou apenas a eles, mas a mim e a meu irmão, e que também nos fez muito felizes e, apesar da barra, foi bonito demais.

Um pouco assustado, mas feliz

“É. Deus dá o frio conforme o cobertor!” Essa foi a frase mais ouvida por mim depois que fiquei sabendo da gravidez gemelar de Clarice. Gemelar. Foi assim que o médico escreveu no diagnóstico do ultrassom. Estávamos os dois no consultório quando vimos pelo vídeo da máquina os dois fetos. Lá estavam os bichinhos. Respirando. Corações a mil.

Segurei na mão de Clarice. Era o mínimo que podia fazer. Ela estava deitada, com um objeto preso à barriga, para melhor observação do médico. Dr. Aguilar. Que, com a cara mais lisa do mundo, virou pra gente e tascou a confirmação: “São gêmeos, certo? Esperem lá fora agora.”

Senti um frio na barriga e vi que Clarice chorava. Procurei água por perto, não sei se para acalmá-la ou a mim. O certo é que bebemos, e pela primeira vez senti gosto na água. Era um gosto estranho, desses que a gente só sente quando engole seco. Meio sem jeito, sei lá. O certo é que nunca senti tanto bem por alguém como naquela hora pelos dois bichinhos descobertos na barriga dela.

Fomos para a sala de espera. “E agora?” Era o que me passava pela cabeça. Estávamos ausentes do lugar, embora ali. Voávamos por algum planeta habitado apenas pelos quatro. Não, não era isso. O que quero dizer é que não estávamos ali de verdade. “Parece mentira, devo estar sonhando”, disse-me várias vezes Clarice. Mas ficamos ali, de frente pro outro, como nunca havíamos experimentado. Éramos quatro e só víamos dois.

A sala de espera parecia nos parabenizar. Sim, veio uma atendente e disse: “parabéns”. Embora aceitasse o elogio, fiquei meio sem jeito. Afinal, que foi que eu fiz? Ou melhor, o que fizemos? Apenas vão nascer dois, em vez de um. E, por falar nisso, penso, agora, vai ser barra, mas que vai ser bonito, vai. Pois é, Clarice, guarda este papel e mostra pros dois, quando eles crescerem. Vão saber como o pai os amou, oficialmente, pela primeira vez. Um beijo.

Written by Rodolfo Borges

Julho 15, 2019 at 8:52 am

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Do que eu falo quando falo com Lucas

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Um fantástico tubo de álcool gel camuflado de bola de futebol

Nunca consegui falar com crianças como se elas fossem apenas crianças. Me parecia bobo, porque eu sempre achei que também parecia bobo para elas que um marmanjo falasse como um… bobo. Então pergunto sobre sua última viagem a Paris, cujas imagens eu pude conferir no Instagram (dos pais deles). Pergunto o que têm visto no celular, qual sua animação hipnótica favorita, onde comprou uma mochila tão estilosa e qual é seu melhor carrinho. Como vai a família? Onde foi parar o seu dente? Como foi a mudança? Homem-Aranha ou Batman? A favor ou contra a reforma da Previdência? É claro que com o meu próprio filho não seria diferente. Era de se esperar, também, que apesar de ele ter apenas cinco dias de vida, os papos seriam bem mais profundos. Como seria possível, senão na base da conversa, aprender junto com o bebê a pegar direito no peito na hora de mamar — ou pelo menos ajudar a mamãe a relaxar durante o desafiante processo? É por isso que o casal ofereceu a Lucas desde sua primeira mamada um exclusivo Colostrino, o cappuccino de colostro servido pela mãe a cada três horas durante os primeiros dias de vida, quando o leite materno ainda não chegou. Reclamações? Favor encaminhar para o SAC, Serviço de Atendimento do Colinho. Ainda mais depois que a mãe recebeu alta do hospital antes dele e o quarto da maternidade passou a tê-lo como titular, o poderoso chefinho, como se o bebê precisasse de mais alguma justificativa para mandar, como se não entrasse no quarto chutando tudo, derrubando mesas e cadeiras em busca do peito e, após três ou quatro sugadas, não fechasse os olhos placidamente como se nada tivesse acontecido e não precisasse ser acordado para seguir a refeição. A estadia no hospital foi prolongada para ele tomar dois dias de banho de luz contra icterícia, gerando na família o receio de ele deixar o berçário com o bronzeado de Donald Trump — too much winning. Também já conversamos sobre um tubo de álcool gel fantástico que eu comprei junto com os remédios para sua mãe se recuperar, um potinho bem pequeno, portátil, com uma capinha inevitável e irresistível de bola de futebol, que na minha cabeça vai me manter sempre disponível para pegar nele enquanto estiver assim, novinho, mas também na moda, porque vai pendurado na mochila — eu tenho, e você não tem. Ele ainda não me falou muito sobre si mesmo, vou tentando descobrir sozinho por enquanto, mas me fez perguntar sobre mim. Para onde vou, de onde vim, de quantas horas de sono por dia um adulto precisa, coisas assim. Me fez querer dizer a ele, só para jogar conversa fora, que, se eu pudesse escolher ser um escritor, seria Albert Camus, para dizer muito com poucas palavras (e ser galã também, claro — nada pessoal, Sartre), ou Italo Calvino, para ser profundo e muito divertido ao mesmo tempo, mas não Dostoiévski, Proust ou Kafka, porque, apesar de ser genial, eu também teria de ser epilético, ter a saúde debilitada a ponto de não conseguir sair de casa ou ter sido esmagado espiritualmente pelo meu pai. Michel Houellebecq seria a opção viva entre os desejos, desde que eu não tivesse que me fumar inteiro. Karl Ove Knausgård seria outra opção, mas sem mostrar tanto as pernas. Também quero dizer que já decidi escrever um livro sobre ele, sobre mim, sobre nós, que já estou escrevendo, estamos escrevendo. Ainda no hospital, de passagem pela TV5Monde, que exibia reportagem sobre os coletes amarelos, aproveitei para dizer que os franceses vivem queimando carros, máquinas produzidas pelos chineses sob os olhares desconfiados dos norte-americanos. Os olhos de Lucas me indagam se os carrinhos de bebê estão incluídos entre os potenciais alvos dos revolucionários. Respondo que os bebês começam queimando os próprios carrinhos na França. Bebês franceses não fazem manha, fazem greve. Outra informação importante no âmbito geopolítico é que a família se posiciona contra os coques samurai e as bandanas em geral. Em relação às demais questões políticas, a gente conversa e se entende. Eu não sei dizer exatamente o que ele apreende de tudo isso, mas me satisfaço com a impressão de que Lucas se acalma ao ouvir a minha voz quem cometeria a covardia de me desmentir? E basta sua mãe implorar para parar de rir, por conta da dor nos pontos que carrega no ventre, para eu saber que nosso papo valeu a pena.

Written by Rodolfo Borges

Julho 13, 2019 at 10:57 pm

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